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Branding

O fim das marcas rasas: por que multissensorial venceu o logo.

Logo bonito virou commodity. As marcas que lideram agora dirigem percepção pelos cinco sentidos, antes da forma. O que mudou no jogo de quem joga sério.

· 8 min

Tem uma cena que se repete em quase toda primeira reunião de cliente novo. A pessoa abre o laptop, mostra o site da concorrência, mostra o logo dela do lado, pergunta se a gente consegue fazer um melhor. Eu sempre digo a mesma coisa: logo melhor é fácil. O que ela está pedindo de verdade é outra coisa, e ela ainda não sabe.

Lá em 2011, quando eu comecei nisso, branding era basicamente identidade visual. Logo, paleta, fonte, papel timbrado, talvez um manual de marca em PDF. Dava para abrir um estúdio só com isso e cobrar bem. Hoje? Identidade visual virou commodity. Existe Canva, existe Looka, existe IA generativa que cospe 20 logos em 4 segundos. Quem ainda vende só identidade visual está vendendo coisa que o cliente pode achar grátis no celular dele [e algumas vezes ele já achou, e a gente entra para refazer no fim].

Mas marca, marca de verdade, não ficou commodity. Pelo contrário: ficou mais cara e mais rara. Porque ela passou a depender de uma camada que ferramenta nenhuma resolve. Essa camada é o que a gente chama de multissensorial.

O dia em que o logo deixou de ser diferencial

O ponto de inflexão foi quando a estética virou democrática. Templates ficaram bons. Tipografia gratuita ficou bonita. Mockups de Instagram ficaram convincentes. O que antes separava uma marca profissional de uma marca amadora, o capricho visual, deixou de separar nada. Hoje qualquer pessoa com três horas de YouTube monta um feed que parece de agência.

O resultado é uma estranha sensação de empate técnico em quase todas as categorias. Restaurantes parecem todos iguais, clínicas estéticas parecem todas iguais, marcas de skincare parecem todas iguais [sabe quando você lembra que viu um produto bom, mas não consegue lembrar a marca?]. Esse é o sintoma da era das marcas rasas: visualmente competentes, emocionalmente esquecíveis.

As marcas que escapam disso não escaparam pelo logo. Escaparam por construir uma frequência que vai além da imagem. Estúdio Barras não é lembrado pelo símbolo, é lembrado pela sensação de seriedade arquitetônica que a comunicação transmite, do site ao briefing comercial, da apresentação institucional ao primeiro café com o cliente.

O que é, afinal, branding multissensorial

Branding multissensorial é a disciplina de construir marca através de todos os pontos de contato sensoriais, não só visuais. É reconhecer que o cliente sente a marca antes de processar logo, paleta ou fonte. Tipografia tem som. Embalagem tem peso. Site tem ritmo. Atendimento tem temperatura. Espaço físico tem cheiro. Tudo isso compõe o que ele lembra depois, e quase nada disso aparece no manual de marca tradicional.

Quem trabalha multissensorial trata identidade visual como um quinto do trabalho, não como o trabalho todo. Os outros quatro quintos são o cheiro do envelope quando chega, o tempo de resposta do time, a forma como o site abre, o vocabulário usado no contrato. Marca premium não é só desenho bonito, ela é coreografia.

Os cinco sentidos numa marca premium

Quais são os cinco sentidos numa marca? Visão (identidade visual, paleta, tipografia, fotografia), audição (música, voz de atendimento, ritmo verbal das peças), tato (textura de papel, peso da embalagem, acabamento do produto), olfato (assinatura olfativa de loja, perfume de envelope, ambiente físico) e paladar (cortesias, brindes comestíveis, experiências gastronômicas associadas). Marcas de luxo trabalham todos. Marcas medianas trabalham um.

O método importa porque nenhum sentido funciona sozinho. Embalagem com peso correto sem tipografia coerente vira inconsistência. Cheiro de loja sem identidade sonora vira teatro. Marbus Cervejaria trabalha autoridade editorial no visual, peso real no produto físico, atendimento direto sem floreios; os três sentidos convergem para uma única leitura de marca. É isso que faz cervejaria artesanal virar autoridade, não rótulo bonito sozinho.

Por que estúdio boutique vê isso primeiro

Agência grande tem um problema estrutural: ela precisa escalar. Para escalar, padroniza processo. Para padronizar processo, separa briefing de execução, criativo de operação, direção de atendimento. O multissensorial morre nessa segmentação, porque exige que a mesma pessoa pense logo, papel, ritmo do site, vocabulário do contrato e cheiro da embalagem ao mesmo tempo.

Estúdio boutique consegue isso pelo simples motivo de ter número limitado de marcas por ano. Direção criativa permanece no projeto da origem à permanência. Não tem repasse de bastão. Não tem briefing perdido na tradução. Aqui na Pagges trabalhamos sempre em dupla, Bruna na direção criativa, Andréa na operação, do primeiro café à entrega final. É caro fazer assim, e a gente sabe que é caro [por isso a gente não atende todo mundo que pede], mas é o único jeito de a coreografia funcionar.

Automatask é exemplo de quando isso entrega: software B2B premium onde naming proprietário, paleta sóbria, ritmo do site e linguagem comercial foram pensados como um único sistema. O cliente percebe sem conseguir nomear o que ele percebeu. Isso é multissensorial funcionando.

“Marca não é o que você diz que ela é. É o que eles dizem que ela é.”

Marty Neumeier, The Brand Gap (Peachpit Press, 2003)

Como saber se sua marca é rasa

Tem um teste simples que faço com fundadores. Pergunto: se a gente apagasse o logo de todas as suas peças, alguém ainda reconheceria que é você? Da apresentação comercial ao e-mail de boas-vindas, do papel de envelope à playlist da loja, do tom do WhatsApp à embalagem do mimo de cliente. Se a resposta é não, a marca está apoiada num símbolo, não numa identidade. E símbolo sozinho é copiável.

Marcas rasas costumam ter três sintomas. Primeiro, dependência total do logo para serem reconhecidas. Segundo, manual de marca curto demais (uma página com cores e fontes) ou longo demais sem aplicação real (40 páginas que ninguém usa). Terceiro, descontinuidade entre canais: o site é uma marca, o Instagram é outra, o atendimento é uma terceira. Marca rasa é marca sem coreografia.

In.Verso Pole Studio é o oposto disso. Comunidade construída a partir de uma paleta documental editorial, voz consistente, fotografia que parece reportagem, redes que falam a mesma língua do espaço físico. Apaga o logo e dá para saber que é In.Verso só pelo tom da legenda. Esse é o ponto.

O método Pagges: origem antes de forma

Na Pagges a gente parte sempre da origem, nunca da forma. Antes de desenhar qualquer coisa, a gente faz imersão: ouvir o fundador, ler contratos antigos, visitar o espaço físico, conversar com cliente que ama e com cliente que reclamou, abrir o histórico de campanhas. A origem da marca está nesses fragmentos, não no briefing escrito. O briefing escrito é o que a empresa acha que ela é. A origem é o que ela é de verdade.

Depois da origem identificada, o desenho vem naturalmente. Paleta, tipografia, sistema gráfico, manual, naming se preciso, arquitetura de marca quando há subprodutos. Mas tudo isso é consequência. A marca já existia, a gente só revelou. Por isso nossas marcas permanecem: porque elas não foram inventadas, foram encontradas.

Logo bom hoje é o piso, não o teto. O teto é a sensação que sobra depois que o cliente fecha o navegador, larga a embalagem na mesa, encerra a ligação. Marca rasa não deixa sensação. Marca multissensorial deixa, mesmo que o cliente não consiga descrever por quê. Simplesmente fica. E é por isso que a gente faz assim.